13 jan 2026
Coalizão Brasileira pelas Evidências mapeia 336 organizações que formam Rede de Evidências do SUS
Pesquisa nacional inédita revela a infraestrutura de produção, tradução e uso de evidências para a saúde pública, identificando pontos fortes e desafios de articulação em cada região do país
Um levantamento inédito, realizado ao longo de 14 meses, identificou e catalogou a rede de 336 organizações e indivíduos que constituem a infraestrutura estratégica para produzir e usar evidências no Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro. O mapeamento é o principal resultado do Projeto Ecoevi-Brasil, desenvolvido entre outubro de 2024 e dezembro de 2025.
A iniciativa é fruto das atividades do Grupo de Trabalho Diagnósticos Situacionais da Coalizão Brasileira pelas Evidências e foi realizada por uma parceria entre o Instituto Veredas, a Universidade de Sorocaba (Uniso) e a Universidade de São Paulo (USP), em articulação com o Ministério da Saúde e financiamento da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).
O diagnóstico foi construído a partir de quatro componentes metodológicos principais que se complementaram para fornecer uma visão abrangente do ecossistema:
- Mapeamento de organizações atuantes;
- Autoetnografia organizacional, para compreender histórias e dinâmicas internas;
- Aplicação da Lista de Verificação da Organização Mundial da Saúde (OMS), adaptada para avaliar a institucionalização do uso de evidências; e
- Análise Situacional, por meio de oficinas regionais que cruzaram dados oficiais com a percepção de agentes-chave.
O estudo revela uma rede diversa, mas com uma concentração massiva na área da produção de conhecimento (85% dos mapeados) e uma fragilidade na ponte entre a ciência e a tomada de decisão, com apenas 12% atuando na mediação e 3% no uso direto de evidências.
“Queríamos saber quem tá produzindo evidências para o SUS, quem tá consumindo essas evidências e quem tá ajudando a aproximar essas evidências de quem toma decisão”, explica Fernanda Carrer, coordenadora-científica do projeto. “Com o resultado, queremos melhorar a qualidade das políticas públicas de saúde, dos programas e das ações que são feitas, monitoradas e avaliadas no SUS”, completa.
A supervisora geral do projeto, Bethânia Suano, destaca que, além do diagnóstico, o Ecoevi entrega duas ferramentas validadas para o contexto nacional: “um manual de análise situacional e a lista de verificação da OMS, que não prevê uma avaliação comparativa nem um ranking, mas uma autoavaliação interna que poderá ser utilizada pelas organizações para seu próprio fortalecimento”.
Retrato Nacional
Do total mapeado, 167 são pesquisadores e núcleos de pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) vinculados ao Programa Pesquisa para o SUS (PPSUS), evidenciando a força da ciência orientada para as prioridades do SUS. Em seguida, aparecem 36 Núcleos de Evidências (NEVs) da rede EVIPNet Brasil – número que já subiu para 40 após a conclusão do mapeamento –, 33 núcleos de ciência e tecnologia, 20 instâncias governamentais e 76 indivíduos ou instituições cadastrados na Coalizão Brasileira pelas Evidências.
“Ao percorrer as cinco regiões foi possível perceber um ecossistema emergente, diverso, que tem desafios, que tem potencialidades, que é vivo e está se transformando”, avalia Júlia, pesquisadora do projeto. A distribuição dos NEVs, estruturas-chave para traduzir ciência em política, revela certa desigualdade regional: Nordeste (16), Sudeste (14), Centro-Oeste (6), Sul (2) e Norte (2).
“Queremos atuar para fortalecer cada vez mais essa rede, não só ampliando o número de NEVs reconhecidos, mas toda a rede em si porque esses resultados vão dar suporte para o planejamento do Ministério da Saúde”, afirma Marta Coelho, representante do Departamento de Ciência e Tecnologia (Decit) do Ministério da Saúde.
Desafios e potenciais em cada região
Entre os produtos que resultaram do Ecoevi-Brasil, estão cinco relatórios regionais que detalham as características singulares e os obstáculos comuns enfrentados pelo ecossistema de evidências:
- Região Norte (27 organizações mapeadas): O diagnóstico aponta um ecossistema emergente e marcado por contrastes, com apenas dois NEVs para atender uma vasta região. A autoetnografia mostrou organizações lutando contra o isolamento geográfico e institucional. Um achado positivo foi a identificação de iniciativas bem-sucedidas de tradução do conhecimento, como o Projeto Ofídio-Venom-Saúde em Rondônia, que integra pesquisa, política pública e comunidade.
- Região Nordeste (103 organizações mapeadas): Possui a maior rede de NEVs do país (16), com destaque para a forte vocação territorial e pluralismo epistemológico identificado na autoetnografia. As organizações da região se caracterizam por integrar saberes tradicionais e científicos. No entanto, a Análise Situacional apontou fragilidades digitais e a Lista de Verificação revelou limitações em “Recursos e Desenvolvimento”, comprometendo a sustentabilidade.
- Região Centro-Oeste (26 organizações mapeadas): A região apresenta governança interna relativamente estruturada, segundo a Lista de Verificação, mas sofre com fragilidade na coordenação regional. Os desafios são agravados pela alta rotatividade de gestores e pela fragmentação dos sistemas de informação, conforme a Análise Situacional.
- Região Sudeste (104 organizações mapeadas): É o polo de maior capacidade científica e concentração de NEVs (14). A Lista de Verificação da OMS revelou uma cultura organizacional madura, mas apontou a Governança como uma fragilidade. A Análise Situacional destacou o gargalo da conectividade (apenas 31% das UBS com internet adequada) como um limitante crítico.
- Região Sul (62 organizações mapeadas): Possui uma base sólida de produção científica, mas a infraestrutura para aplicar evidências na gestão é limitada. Com apenas dois NEVs, a região enfrenta uma deficiência crítica na mediação do conhecimento. A Análise Situacional identificou a ausência de mecanismos sistemáticos de articulação entre governo, universidades e núcleos.
Caminhos para o Futuro
Os resultados convergentes de todas as regiões apontam para dois caminhos estratégicos para o fortalecimento do ecossistema. O primeiro é a institucionalização de mecanismos de governança que criem comitês, fluxos e mandatos formais para o uso de evidências, superando a dependência de iniciativas individuais. O segundo é o fortalecimento da capilaridade e articulação em rede, especialmente por meio dos NEVs, para que funcionem como hubs regionais que conectem a produção científica às secretarias de saúde municipais e estaduais.
O Projeto Ecoevi-Brasil deixa um legado duplo: um mapa vivo dos atores que podem tornar o SUS cada vez mais fundamentado em ciência robusta e contextualizada, e as ferramentas metodológicas validadas para que esses próprios atores possam continuar a se avaliar e fortalecer. A tarefa agora, como indica o estudo, é transformar essa capacidade instalada em impacto concreto e sistêmico na saúde pública brasileira.
Confira os relatórios regionais e resumos executivos do Projeto Ecoevi-Brasil
Comunicação Veredas