17 set 2026

Inteligência artificial é tema de debates sobre currículo, avaliação e formação docente no 7º Ciclo de Oficinas sobre Educação Problematizadora

Evento produzido pela Universidade de Sorocaba, Nev Seriema e Coalizão Brasileira pelas Evidências começou nesta quarta (16/09) com discussão sobre os impactos da inteligência artificial no ensino superior

A presença crescente do uso de Inteligência Artificial (IA) nas universidades e os desafios que ela impõe à formação de estudantes e docentes marcaram a abertura do 7º Ciclo de Oficinas sobre Educação Problematizadora, nesta quarta (16/09). Promovido pelo programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Universidade de Sorocaba Universidade de Sorocaba (Uniso), pelo Núcleo de Evidências Seriema (Nev Seriema) e pela Coalizão Brasileira pelas Evidências, o ciclo segue até 16 de outubro, em formato online e aberto à comunidade acadêmica e ao público em geral.

Com o tema “Quem forma quem ensina? Rupturas necessárias na jornada de aprendizagem em saúde”, a sétima edição reúne doutorandas(os), docentes universitárias(os), pesquisadoras(es), educadoras(es) e gestoras(es) para refletir sobre a formação de professoras(es) para a educação superior, especialmente na área da saúde.

A programação foi aberta pela conferência “IA, currículo e docência: o que a graduação decidiu não discutir”, ministrada pelo professor Marcos Garcia Neira, da Universidade de São Paulo (USP). Ao longo do encontro, Neira defendeu que a discussão sobre inteligência artificial nas universidades precisa avançar para além da oposição entre permitir ou proibir o uso de ferramentas.

“A questão não é mais aceitar ou rejeitar a IA; ela já está. Os estudantes e docentes usam de várias maneiras. A nossa preocupação tem sido como orientar pedagogicamente a presença da IA e subordiná-la aos objetivos educacionais”, afirma o professor.

IA como uma questão curricular

Durante a aula inaugural, Neira propôs compreender o uso da IA como parte de uma discussão mais ampla sobre currículo. Segundo ele, currículo não se limita ao conteúdo prescrito no programa de uma disciplina, mas envolve a própria experiência de formação dos sujeitos e a constituição de suas identidades. Nessa perspectiva, decidir como e para quê utilizar a IA também se torna uma decisão curricular.

A reflexão passa ainda pela autoria e pela responsabilidade de quem utiliza essas ferramentas. Entre os pontos apresentados durante a conferência estiveram a necessidade de definir com clareza as finalidades formativas, estabelecer critérios pedagógicos e considerar a responsabilidade pública das instituições de ensino.

O professor destacou que a IA pode contribuir para a produção de recursos educacionais e para o acompanhamento da aprendizagem, mas alertou para situações em que seu uso substitui etapas importantes do processo formativo. “Quando a ferramenta passa a elaborar, pelo estudante, aquilo que ele próprio deveria construir, perde-se parte da experiência de pesquisar, errar, revisar e reelaborar”, avalia.

Avaliação precisa acompanhar processos, não apenas entregas

Outro ponto central da conferência foi a forma de avaliação dos estudantes. Para Neira, a popularização da IA tornou ainda mais evidente a necessidade de rever modelos centrados apenas no produto final entregue pelo estudante. “Não podemos reduzir a avaliação à entrega de atividades”, destaca o professor, ao defender uma concepção de avaliação capaz de identificar evidências de aprendizagem e acompanhar o percurso do estudante.

A apresentação propôs uma avaliação processual que considere diferentes etapas do percurso formativo, como diagnóstico inicial, feedback, reelaboração, argumentação e síntese do aprendizado. Também ressaltou a importância de tornar visível o processo de construção dos trabalhos, inclusive por meio do registro do histórico de interações com ferramentas de IA.

Acesso à tecnologia também é questão de equidade

O professor também chamou a atenção para as desigualdades no acesso às ferramentas de IA, especialmente aos recursos pagos. Para o professor, a incorporação dessas tecnologias à educação superior exige que as instituições estabeleçam normas claras sobre os usos permitidos e assumam responsabilidade pelas condições de acesso.

A discussão apresentada no encontro relacionou a equidade educacional a fatores como o acesso a ferramentas, infraestrutura e conectividade, os riscos de vieses algorítmicos e o letramento para o uso crítico da tecnologia. A ideia central é que a inovação tecnológica, quando não acompanhada de preocupações com justiça social, pode aprofundar desigualdades já existentes.

A pesquisadora e professora do Programa de Pós-Graduação da Uniso, Luciane Lopes, que mediou o debate, destaca as trajetórias desiguais que as(os) estudantes percorrem desde o ensino fundamental até chegarem à universidade. “Muitas vezes lemos essas diferenças como fracasso individual, quando não o são. Com a IA, quem já tem repertório tende a usá-la para aprender mais, e quem não tem, para substituir o próprio esforço. É preciso discutir um projeto curricular que possa evitar que a IA aprofunde essas desigualdades”, avalia. 

Ciclo segue até outubro

O debate sobre inteligência artificial inaugura uma programação de cinco oficinas que se estende até 16 de outubro. Os próximos encontros abordarão desafios na jornada educacional, currículos em movimento, avaliação e o papel da pós-graduação na formação de pesquisadoras(es) e professoras(es).

As inscrições são gratuitas e podem ser realizadas por formulário online.

Inscreva-se no 7º Ciclo de Oficinas sobre Educação Problematizadora

GT Comunicação Coalizão Brasileira pelas Evidências