06 out 2026

Trajetória dos estudantes e responsabilidade compartilhada pela aprendizagem são destaques no 7º Ciclo de Oficinas sobre Educação Problematizadora

Segundo encontro do ciclo discutiu acesso, permanência, qualidade e equidade na educação e os diferentes fatores que influenciam o percurso dos estudantes da educação básica ao ensino superior

Os desafios que atravessam a trajetória das(os) estudantes brasileiras(os), da educação básica à universidade, e a responsabilidade de diferentes agentes-chave pelo sucesso ou fracasso desse percurso estiveram no centro do segundo encontro do 7º Ciclo de Oficinas sobre Educação Problematizadora, realizado na sexta-feira (2/10).

Com o tema “Quando o percurso falha, quem leva a culpa? Desafios da jornada de aprendizagem do fundamental à universidade”, o painel reuniu Vinícius Espaúcioli Campos, coordenador-geral de Articulação da Infraestrutura Nacional de Dados da Educação do Ministério da Educação (MEC),  Claudia Costin, presidente-executiva do Instituto Salto, e Ernesto Martins Faria, pesquisador e diretor-fundador do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede). A professora e pesquisadora Luciane Lopes, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Universidade de Sorocaba (Uniso), mediou o debate.

A trajetória educacional não depende apenas do estudante

O debate apontou que o Brasil avançou significativamente na ampliação do acesso à educação, especialmente entre crianças e adolescentes em idade escolar. No ensino médio, entretanto, persistem desafios relacionados à permanência e à adequação da trajetória escolar, com estudantes que frequentam a escola, mas não necessariamente avançam no percurso esperado. 

Uma das principais reflexões apresentadas foi a necessidade de compreender a trajetória educacional para além do desempenho individual. Durante o painel, Vinícius Campos definiu a trajetória do estudante como um percurso construído ao longo da vida educacional e determinado pela interação entre a escola, a estrutura familiar, as instituições sociais e o contexto econômico.

Para ele, a aprendizagem é influenciada simultaneamente por fatores intraescolares (qualidade docente, gestão escolar, infraestrutura e expectativas) e extraescolares, como condições socioeconômicas, ambiente familiar, saúde física e mental e contexto territorial.“A responsabilidade pelo sucesso na jornada do estudante é compartilhada entre múltiplos atores e todo mundo pode cooperar. Quando o percurso falha, a gente pergunta de quem é a responsabilidade, mas e quando ele é bem-sucedido?”, provocou Campos.

Ampliar o acesso não basta: é preciso discutir qualidade e equidade

Os avanços no acesso à escola tornam mais evidente outro desafio: garantir que a expansão seja acompanhada de qualidade, equidade e inclusão. Dados apresentados durante o painel mostram, por exemplo, o crescimento da presença de estudantes da educação especial em classes comuns. Ao mesmo tempo, persistem desigualdades importantes nos resultados de aprendizagem, relacionadas a fatores como nível socioeconômico, raça, gênero, território e deficiência.

“A qualidade não pode vir dissociada da equidade”, afirma Campos ao destacar que a ampliação do acesso modifica o perfil de quem chega ao ensino superior e exige que as instituições reconheçam as diferentes condições e trajetórias que interferem na aprendizagem. 

Para Ernesto Martins Faria, a desigualdade é um dos grandes desafios da educação brasileira. “Apesar dos avanços e das experiências positivas observadas em estados como Ceará e Piauí, ainda é necessário ampliar as oportunidades para que estudantes do ensino fundamental e médio avancem em suas trajetórias educacionais”, afirma. 

“É necessário remover barreiras à aprendizagem e assegurar que a escola seja capaz de acolher diferentes estudantes”, avalia Cláudia Costin ao relacionar o desafio da equidade ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4 (ODS 4), que prevê assegurar, até 2030, educação inclusiva, equitativa e de qualidade e oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todas as pessoas. 

Uma escola que ensine a pensar e também aprenda

Para ela, responder aos desafios atuais exige mudanças na própria concepção de escola e de aprendizagem. Entre as tendências educacionais discutidas durante sua apresentação, estiveram a resolução colaborativa de problemas complexos, a interdisciplinaridade, as metodologias ativas, a aprendizagem profunda, a cultura digital, a educação midiática e a inteligência artificial, além do desenvolvimento de competências socioemocionais e do protagonismo juvenil.

A educadora defendeu uma escola em que estudantes e professoras(es) aprendam continuamente, trabalhem de maneira colaborativa e tenham condições de desenvolver autonomia e pensamento crítico.“Sonho com uma escola em que todos aprendam, tanto os alunos quanto os professores. Em que ambos também trabalhem colaborativamente e sejam valorizados”, afirmou. 

E quem forma quem ensina?

Ao aproximar a discussão da educação superior, o encontro retomou uma das questões centrais desta edição do ciclo: a formação de quem ocupa a posição de docente.

Durante o debate, Luciane Lopes chamou a atenção para uma contradição presente na pós-graduação: enquanto os programas são estruturados prioritariamente para formar pesquisadores, muitos de seus egressos assumem posteriormente a docência sem ter recebido formação pedagógica equivalente.

“A pós-graduação forma pesquisador, não forma professor. Por que a medicina baseada em evidências não tem dificuldade em se autodenominar como tal, mas ainda temos dificuldade em assumir um ensino baseado em evidências? O que está faltando para sairmos do documento e trazermos isso para a prática?”, questiona. 

A ideia de que estudantes universitários, por serem adultos, já chegam à graduação preparados para estudar e aprender com autonomia também foi questionada pelos participantes. As manifestações trouxeram uma provocação para o debate: é possível exigir autonomia sem antes criar condições para que o estudante aprenda a aprender? 

Sobre o Ciclo de Oficinas

O 7º Ciclo de Oficinas sobre Educação Problematizadora é uma iniciativa do programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Universidade de Sorocaba (Uniso), do Núcleo de Evidências Seriema (Nev Seriema) e da Coalizão Brasileira pelas Evidências. O ciclo reúne doutorandos, docentes universitários e pesquisadores da área da saúde para refletir criticamente sobre a formação de professores para a educação superior em saúde.

Os próximos encontros estão programados para:

Quando: 09/10 (sexta-feira), das 14h às 16h
Painel: Currículos em Movimento
Convidada: Isabel Saccoman (PUC Sorocaba) e  Antônio Bara Bresolin (MNB)  

Quando: 14/10 (quarta-feira), das 13h às 15h
Painel: Avaliação: o que conta como evidência de aprendizagem?
Convidados: Domingos Fernandes (ISCTE-IUL, Lisboa), Luiz Ernesto Troncon (FMRP-USP) e Angélica Bicudo (Unicamp)

Quando: 16/10 (sexta-feira), das 14h às 16h
Painel: A pós-graduação forma pesquisadores ou professores?
Convidados: Valdes Bollela (FMRP-USP) e Carlinda Leite (Universidade do Porto)

As inscrições são gratuitas e podem ser realizadas por meio de um formulário online.

Inscreva-se no 7º Ciclo de Oficinas sobre Educação Problematizadora

GT Comunicação Coalizão Brasileira pelas Evidências

Foto: Imagem meramente ilustrativa criada com recursos de I.A.