O painel contou com a participação de Valdes Bollela, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) e Carlinda Leite, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (Portugal) para dialogar sobre as inovações necessárias nos programas de pós-graduação stricto sensu para que a formação pedagógica sejam um processo contínuo, estruturado e intencional.
O painel de encerramento do 7º Ciclo de Oficinas sobre Educação Problematizadora realizado em 16 de outubro, em formato online e ao vivo, trouxe um paradoxo para o centro do debate: os cursos superiores conduzidos por docentes com alta qualificação em pesquisa, mas sem formação pedagógica sistemática. O debate questionou: “A pós-graduação forma pesquisadores ou professores?”
Promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Universidade de Sorocaba (PPGCF-Uniso), pelo Núcleo de Evidências Seriema (NEv-Seriema) e pela Coalizão Brasileira pelas Evidências, este ciclo de oficinas teve como tema geral “Quem forma quem ensina? Rupturas necessárias na jornada de aprendizagem em saúde”, sob coordenação geral da professora Luciane Cruz Lopes.
Reprodução de modelos tradicionais e lacunas estruturais

Segundo à apresentação de Valdes Bollela, a maior parte dos docentes do ensino superior, especialmente na área da saúde, é formada nos programas de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado). No entanto, o professor avalia que a estrutura desses programas prioriza quase exclusivamente o desenvolvimento de competências em investigação científica, deixando o aprendizado da docência em segundo plano ou reduzido a práticas pontuais de estágio de ensino.
Ele chama a atenção para o resultado dessa lacuna, em especial a reprodução contínua de métodos tradicionais: “sem repertório pedagógico crítico, o novo professor tende a ensinar exatamente como foi ensinado, perpetuando aulas expositivas focadas na transmissão de conteúdos”, afirma. O painel enfatizou a urgência de transformar essa preparação acidental em uma formação docente estruturada, ancorada em metodologias ativas e em evidências educacionais.
“A pós-graduação brasileira consolidou uma excelência indiscutível na formação de pesquisadores, mas ainda trata o aprendizado da docência como um subproduto secundário. Precisamos romper com a ideia de que quem domina o conteúdo automaticamente sabe ensinar, trazendo a formação pedagógica para o centro da pós-graduação”, conclui Bollela.
Diálogos internacionais sobre a docência universitária

A contribuição da professora Carlinda Leite trouxe a perspectiva europeia sobre as(os) professoras(es) universitárias(os). A pesquisadora destacou que o desafio de profissionalizar a prática docente no ensino superior atravessa diferentes países e exige políticas institucionais permanentes de desenvolvimento pedagógico.
O debate abordou como a valorização excessiva da produção bibliométrica na pós-graduação pressiona as(os) futuras(os) professoras(es) a se concentrarem, exclusivamente, na publicação de artigos, invisibilizando o valor social e transformador do trabalho em sala de aula. Para Carlinda, a superação desse cenário requer a criação de espaços de reflexão sobre o ato de ensinar, o uso de evidências na educação e a avaliação focada no desenvolvimento da(o) estudante.
“A docência no ensino superior exige saberes específicos que vão muito além da investigação científica. Formar professores para o século 21 implica criar comunidades de prática nas universidades, onde o ensino seja pensado de forma reflexiva, colaborativa e comprometida com a democratização da aprendizagem. Quem ensina deve alinhar o desejo de investigar à responsabilidade de formar pessoas. Precisamos criar comunidades de prática e observação que valorizem a pesquisa, sem perder de vista o valor humano da arte de ensinar”, argumenta,
O legado do 7º Ciclo de Oficinas sobre Educação Problematizadora
Com o painel de 16 de outubro, o 7º Ciclo encerrou uma trajetória de cinco oficinas virtuais gratuitas realizadas entre setembro e outubro de 2026. Ao longo da programação, o ciclo reuniu especialistas do Brasil e do exterior para abordar desde o impacto da Inteligência Artificial e a evasão no percurso educacional até as revisões curriculares e a avaliação da aprendizagem:
- 16/09: IA, currículo e docência: o que a graduação decidiu não discutir (Marcos Garcia Neira – USP).
- 02/10: Quando o percurso falha, quem leva a culpa? Desafios da jornada de aprendizagem do fundamental à universidade (Cláudia Costin, Vinícius Campos e Ernesto Faria).
- 09/10: Currículos em Movimento (Isabel Saccoman e Antônio Bara Bresolin).
- 14/10: Avaliação: o que conta como evidência de aprendizagem? (Domingos Fernandes, Luiz Ernesto Troncon e Angélica Bicudo).
- 16/10: A pós-graduação forma pesquisadores ou professores? (Valdes Bollela e Carlinda Leite).
A iniciativa reafirmou o compromisso do PPGCF-Uniso, do NEv-Seriema e da Coalizão Brasileira pelas Evidências em conectar a pesquisa acadêmica ao fortalecimento das políticas públicas de educação e saúde. Os participantes que registraram presença em pelo menos três encontros têm direito ao certificado de 10 horas.
GT Comunicação — Coalizão Brasileira pelas Evidências