Encontro do ciclo discutiu o que conta como evidência de aprendizagem e apresentou caminhos para que a avaliação vá além da nota e passe a apoiar o percurso do estudante.
Com o título “Avaliação: o que conta como evidência de aprendizagem?”, o painel realizado no dia 14 de outubro, no 7º Ciclo de Oficinas sobre Educação Problematizadora, reuniu Domingos Fernandes, professor catedrático emérito do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), Luiz Ernesto Troncon, professor colaborador sênior da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), e Angélica Bicudo, professora titular de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Campinas (Unicamp).
A mediação foi da professora e pesquisadora Luciane Lopes, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Universidade de Sorocaba (Uniso), com participação e fala de abertura do professor Fernando Delfiol, em nome da reitoria da Uniso.
Avaliação como domínio e suas características
Domingos Fernandes destacou os diferentes desafios do campo da avaliação. Ele defende a avaliação como um domínio de conhecimento próprio, com objetos, método e caráter transdisciplinar. Dentre os critérios de qualidade de uma avaliação, ele destaca rigor, exequibilidade, utilidade e adequação ética.
Ele posiciona também as avaliações não como “meras medidas”, mas construções sociais complexas, ligadas à política e à ética. O pesquisador distinguiu a avaliação formativa, que acompanha o ensino e tem como principal propósito dar feedback de qualidade, da avaliação da aprendizagem, ou somativa, que faz um balanço do que foi aprendido.
“Precisamos ter um conhecimento aprofundado sobre determinadas matérias. Pois se não tivermos esses conhecimentos, como professores, estudantes, pesquisadores, dificilmente conseguiremos lidar com os desafios da Inteligência Artificial, seja perante o currículo, sobre a pedagogia e os métodos que utilizamos e também sobre a avaliação”, destacou.

Avaliação programática e o acompanhamento de estudantes
O professor Luiz Ernesto Troncon apresentou um panorama da avaliação na educação médica, aplicável a todas as profissões da saúde. Apontou distorções frequentes na prática: avaliação delegada a cada professor ou professora, foco em conhecimentos, decisões baseadas em uma única prova final, competição por notas e o hábito de estudar para o exame e esquecer logo depois.
Como alternativa, destacou a avaliação programática, de referência na Universidade de Maastricht, nos Países Baixos, e recomendada novas Diretrizes Curriculares Nacionais de Medicina, de 2025. Nesse modelo, a instituição organiza um programa de avaliação que acompanha o estudante do primeiro ao último dia, com momentos frequentes de avaliação formativa, registro em portfólio eletrônico, mentoria e decisões colegiadas. Segundo Troncon, é como uma imagem formada por pixels: quanto mais momentos de avaliação, mais nítido o retrato do estudante. “Não é o professor que aprova e reprova, é a instituição”, resumiu.
Entre os benefícios relatados na literatura estão a detecção precoce de estudantes com dificuldades, maior satisfação de estudantes e docentes e estudantes mais autônomas(os) e “ávidas(os) por devolutiva”. Os desafios incluem a resistência de docentes e discentes e regimentos que exigem notas de 0 a 10 e não admitem o juízo qualitativo.

Teste de progresso e EPAs: evidências complementares
Angélica Bicudo apresentou o teste de progresso, prova que cobre todo o curso e é aplicada na mesma data a estudantes de todos os anos. O teste permite acompanhar a evolução do estudante e identificar lacunas no currículo, comparando cada escola com a média do grupo, sem foco em ranqueamento. As(Os) estudantes recebem a prova e, depois, um gabarito comentado com referências. A professora ressaltou que o teste avalia sobretudo competência cognitiva e, por isso, precisa ser combinado a outros instrumentos.
Entre esses modelos estão as Atividades Profissionais Confiáveis (EPAs), que registram, em múltiplas observações, o nível de confiança do supervisor ou supervisora na(o) estudante em situações reais de atendimento, com autonomia progressiva e decisão de um comitê.

Desafios e riscos da Inteligência Artificial
Sobre o uso da Inteligência Artificial na aprendizagem e avaliação, Bicudo apontou benefícios, como ajudar professoras(es) a elaborar questões e a dar devolutiva, mas, por outro lado, pode comprometer avaliações cujo objetivo é promover o diagnóstico e comparação ao longo do tempo. Ela observa essas questões, sobretudo pelas diretrizes recentes, que obrigam a inclusão de IA e telemedicina no currículo.
Para a professora, é preciso adotar a IA de forma crítica, ética e pedagogicamente fundamentada, olhando cuidadosamente para fatores como integridade acadêmica e plágio, validade e confiabilidade, privacidade (LGPD), responsabilidade pelas decisões e dependência excessiva, evitando a “delegação” do raciocínio para essas ferramentas.
Sobre o Ciclo de Oficinas
O 7º Ciclo de Oficinas sobre Educação Problematizadora reúne pesquisadoras(es), docentes e profissionais interessadas(os) em discutir os desafios contemporâneos da educação e da formação de professoras(es), especialmente no ensino superior e na área da saúde. A programação incluiu cinco atividades online e gratuitas. Participantes que acompanharam ao menos três sessões têm direito a certificado.
GT Comunicação Coalizão Brasileira pelas Evidências