Elaborado por uma equipe de 10 pesquisadoras(es), o estudo sintetiza as principais evidências científicas encontradas em mais de 200 artigos, mapeando oportunidades, riscos, e desafios de equidade e governança das tecnologias de descarbonização.
Diante da urgência climática, a descarbonização e a transição para uma economia de baixo carbono ganharam destaque nas agendas e acordos internacionais, mas sua viabilidade ainda depende de fatores políticos, econômicos e sociais. Nesse contexto, a Coalizão Brasileira pelas Evidências e o Instituto Veredas, ao longo de março de 2025 reuniram e sistematizaram evidências sobre as tecnologias de descarbonização para o Conselho Consultivo Científico da Organização das Nações Unidas (ONU), mapeando conceitos, oportunidades, riscos e questões de equidade e governança.
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A pesquisa surgiu a partir de uma demanda do Conselho de Assessoramento Científico (Scientific Advisory Board) da Universidade das Nações Unidas articulada pela McMaster University que distribuiu os temas estratégicos entre organizações do Sul Global para garantir que as revisões rápidas fossem realizadas em tempo oportuno.
Embora exista um relevante número de estudos sobre descarbonização e diferentes tecnologias, a revisão encontrou sínteses de evidências de baixa qualidade sobre os riscos e as oportunidades das tecnologias de descarbonização, além de muito poucas evidências empíricas dedicadas à equidade e à governança dessas tecnologias.
Questões-chave
Com o desafio de concluir a revisão das sínteses de evidências em 10 dias úteis, a produção do documento contou com a colaboração de 10 autoras(es) para triagem, análise e categorização das evidências. O documento foi feito com base nas seguintes perguntas:
- Como a literatura científica define a descarbonização e quais tecnologias estão abrangidas por essa definição?
- Quais são os principais riscos — incluindo aspectos relacionados à equidade — e as oportunidades associadas à descarbonização e às tecnologias a ela relacionadas?
- Quais têm sido as experiências dos países na governança das tecnologias de descarbonização?
As perguntas-chave nortearam o processo de busca e triagem das evidências, que resultou em 205 artigos, e sua classificação por relevância (alta, média ou baixa) junto às(aos) pesquisadoras(es).
“O que mais me marcou foi perceber que a extração de dados vai muito além de preencher uma planilha. Cada artigo apresentava informações com diferentes níveis de clareza, estrutura e detalhamento metodológico, o que exigia interpretar cuidadosamente quais dados realmente respondiam às perguntas-chave e manter a padronização entre todos os estudos. A interação da equipe em um ambiente virtual foi um grande facilitador para esclarecer dúvidas, alinhar interpretações, compartilhar experiências e construir entendimentos de forma colaborativa”, comenta Maíra Barroso Pereira, doutoranda em Medicina Translacional da Escola Paulista de Medicina (EPM-Unisfesp), colaboradora do Instituto Vértice e membro do GT de Educação Permanente da Coalizão
O que mostram os resultados
- Em relação ao conceito, a maioria dos documentos não apresentou uma definição explícita de descarbonização. O termo aparece associado, de forma implícita, à redução sustentada de emissões, a emissões líquidas zero de gases de efeito estufa, à neutralidade de carbono, a emissões negativas, à transição para uma economia de baixo ou zero carbono, a tecnologias de remoção de dióxido de carbono e à transição para tecnologias limpas ou fontes de energia renovável.
- A viabilidade econômica aparece como a principal barreira à adoção dessas tecnologias. Altos custos iniciais, processos intensivos em energia, dependência de matérias-primas críticas, desafios de infraestrutura e retornos financeiros incertos dificultam sua implementação em larga escala.
- As evidências demonstram elevado potencial para setores intensivos em emissões, como manufatura, energia, transporte, agricultura e construção. Essas tecnologias podem contribuir para enfrentar desafios ambientais e, ao mesmo tempo, gerar benefícios econômicos, como criação de empregos, segurança energética e maior eficiência no uso de recursos.
- Além dos aspectos tecnológicos, as evidências ressaltam a importância de considerar as dimensões de equidade e governança na transição. Os benefícios e riscos da descarbonização podem ser distribuídos de forma desigual, afetando especialmente países e comunidades com menor capacidade de investimento e adaptação.
- Para uma transição justa e efetiva, os estudos destacam a necessidade de marcos regulatórios robustos, mecanismos de financiamento, coordenação entre diferentes atores e processos participativos de tomada de decisão.
“A Coalizão aplicou o método de revisão rápida aperfeiçoado pela Universidade McMaster do Canadá, incluindo as melhores sínteses de evidências já publicadas mundo afora e complementando com estudos sobre aspectos de equidade e governança. O trabalho foi dividido para garantir que os processos de seleção, extração e avaliação de qualidade metodológica dos estudos fossem conduzidos com rigor, ao mesmo tempo em que parte da equipe trabalhava numa síntese narrativa dos achados em linguagem mais amigável e alinhada com as perguntas da ONU”, afirma Laura Boeira, psicóloga (UFRGS), mestre em Bioética (UnB) e doutora em Psicologia Social (PUCRS). Laura atua como gestora de redes e parcerias no Instituto Veredas e co-diretora do Hub de Evidências da América Latina e do Caribe (HubLAC)
GT de Comunicação da Coalizão e Comunicação Veredas