A coletânea possui 21 artigos, escritos por mais de 70 autores(as), e aponta caminhos para uma governança informada por evidências.
*Além de saber mais sobre o evento de lançamento, confira no fim da matéria a entrevista exclusiva com Natália Massaco Koga, que comenta sobre a trajetória de organização e elaboração da publicação

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) lançou na última terça (26/05) o livro Políticas Públicas Informadas por Evidências – Conhecimentos, Arranjos e Capacidades para a Governança Democrática, com artigos de autoria de representantes da Coalizão Brasileira pelas Evidências. Realizado no marco da Semana da Avaliação 2026, em Brasília (DF), o evento contou com transmissão online no YouTube do Ipea.
A publicação é composta por 21 capítulos que reúnem mais de 70 autores(as) de cerca de 60 organizações nacionais e internacionais. Para organizar as diferentes linhas de pesquisa, o livro foi dividido em 4 seções: desafios contemporâneos; Modelo moderado de evidências;experiências de institucionalização de uso de evidências; e práticas de intermediação e coprodução de evidências.
Autoras(es) e organizadoras(es) apontam o cenário atual, marcado por diversas transformações tecnológicas e as disputas de narrativa no contexto informacional, como ponto de partida para a ideia do livro. Nesse contexto, a produção de conhecimento para subsidiar a formulação das políticas públicas torna-se um debate cada vez mais relevante na agenda política. Apesar do avanço desse debate, ainda persistem importantes assimetrias na forma como evidências são produzidas, traduzidas e incorporadas aos processos decisórios.
“A coletânea é fruto de uma comunidade que, desde 2019, vem dialogando sobre esse tema. Nesses anos de pesquisa empírica, percebemos que o termo ‘evidência’ passou a fazer parte do nosso cotidiano. E é impossível falar em ampliar o uso de evidências sem também discutir o aprimoramento da governança democrática. As evidências são mais um elemento desse arranjo, e o livro traz contribuições importantes para sinalizar caminhos nesse sentido”, afirma Natália. Koga, pesquisadora do Ipea e organizadora da publicação.

“O livro mostra que não basta mais evidências e uma defesa geral da ciência. Não basta comunicar melhor evidências. É preciso realizar um trabalho ‘de base’ para construir legitimidade, confiança e uma cultura de evidências a nível local para passar essa barreira da bolha.”, complementa Marisa von Büllow, diretora do Instituto de Ciência Política e membro do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB).
“Um dos maiores desafios para o uso de evidências nas políticas públicas são produções descoladas da realidade concreta da administração pública, que não dialogam com o dia a dia da política”, completa Tamile Dias, Coordenadora-Geral de Avaliação e Organização de Evidências da Diretoria de Altos Estudos da Escola Nacional de Administração Pública (Enap).
Além de Natália e Marisa, a mesa do debate foi composta por Pedro Palotti, que também é um dos organizadores da publicação, e Luseni de Aquino, da Diretoria de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia (Diest/Ipea).
Colaboração da Coalizão Brasileira pelas Evidências

A Coalizão Brasileira pelas Evidências está presente na publicação por meio da contribuição de diversos autores e autoras. Essa participação reflete não apenas a capacidade de produção de conhecimento da rede, mas também os aprendizados acumulados a partir de experiências concretas de uso de evidências em políticas públicas. Além disso, reforça o potencial da articulação multissetorial para fortalecer capacidades, promover o diálogo entre diferentes atores e construir arranjos colaborativos que favoreçam a governança democrática das evidências.
“No nosso capítulo a gente traz um grande desafio, que é como poder unir essas diferente vozes das políticas informadas por evidências, dando as condições para que todas as pessoas possam desde um início de um problema de política pensar junto como ele pode se desdobrar em um produto de evidência que informe realmente a tomada de decisão. A gente revisou experiências do mundo todo que trazem exemplos muito interessantes, além das experiências do Brasil”, afirma Laura Boeira, gestora de Redes e Parcerias do Instituto Veredas.
“A mensagem que deixamos aos gestores é que integrem a ciência à experiência das comunidades. Por que as melhores políticas nascem da colaboração”, completa Ingrid Abdala, diretora-executiva do Instituto Veredas
Acesse a publicação completa aqui
Entrevista com Natália Massaco Koga
Doutora em Ciência Política pela University of Westminster e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental (EPPGG). Natália é pesquisadora do Ipea e organizadora da publicação.

1. A coletânea reúne mais de 70 autores(as) de diferentes setores e organizações. Quais foram os principais desafios no processo de articulação, organização e síntese de tantas perspectivas? E, ao mesmo tempo, quais os maiores ganhos de construir uma visão multidisciplinar sobre Políticas Informadas por Evidências?
Natália: Entendo que a reunião desse coletivo foi possível graças a uma série de circunstâncias favoráveis. A primeira delas foi o estágio de maior maturidade dos estudos sobre temáticas que as/os organizadoras/es avaliaram como centrais e urgentes no campo das Políticas Públicas Informadas por Evidências, como o desmonte de políticas, a desinformação, o negacionismo, a institucionalização do uso de evidências e a coprodução do conhecimento.
O desafio inicial foi reunir representantes desses diferentes campos de estudo em uma mesma coletânea. Nossa primeira satisfação foi constatar que os convites foram prontamente aceitos por essas dezenas de autoras(es). O fato de contarmos com sete organizadoras/es, que mobilizaram redes, perspectivas e expertises igualmente diversas, certamente viabilizou esse engajamento inicial.
A partir de então, nossos principais desafios passaram a ser garantir a publicação da coletânea em tempo hábil para que ela permanecesse atual — especialmente em um ano eleitoral — e construir uma narrativa que representasse, ainda que minimamente, o conjunto dessas múltiplas contribuições. Novamente, a colaboração de todos os envolvidos — autoras(es), pareceristas, direção da Diest/Ipea, equipe técnica, editorial e de comunicação do Ipea — foi essencial para que o lançamento ocorresse durante a Semana da Avaliação, ampliando o alcance da publicação e sua aderência tanto ao público leitor almejado quanto às mensagens centrais da obra.
Quanto à narrativa construída pela(os) organizadoras(es), ela foi elaborada não apenas por meio do diálogo entre nós, mas também em interação com autoras(es) em encontros virtuais, e durante a elaboração e a troca de pareceres. Acreditamos, assim, que a busca por um processo plural e dialógico de produção da coletânea foi justamente um dos seus principais ganhos, por ter permitido o fortalecimento das relações desse coletivo e o aprofundamento de suas reflexões.Esperamos que o resultado desse esforço pela pluralidade na construção do livro torne a coletânea acessível e significativa para diferentes comunidades.
2. Como você enxerga o papel da articulação em redes para o avanço da institucionalização do uso de evidências na gestão pública, sobretudo nos parâmetros discutidos no livro, como o fortalecimento de capacidades e arranjos para uma governança democrática?
Natália: É fundamental. O que aprendemos ao longo destes anos de pesquisa é que a evidência é definida e circula de diferentes formas, a depender do contexto da política pública e do contexto decisório. Portanto, não existe uma forma certa ou errada de institucionalizar o uso de evidências. É necessário compreender as especificidades de cada contexto e desenvolver arranjos institucionais mais adequados para promover culturas situadas de uso de evidências.
Redes plurais comprometidas com o compartilhamento de aprendizados, experiências e conhecimentos, levando em conta essa perspectiva contextual, como a Coalizão Brasileira pelas Evidências e a ReneDH no Brasil — tema abordado em um capítulo escrito por vários colegas dessas redes —, são essenciais para compreender essas especificidades e explorar caminhos para a boa institucionalização do uso de evidências considerando o contexto.
3. Quais são os principais legados que vocês esperam deixar com esta publicação para o campo das Políticas Informadas por Evidências? E que aprendizados ou agendas futuras vocês acreditam que podem inspirar uma próxima edição?
Natália: Pessoalmente, espero que a coletânea contribua para trazer a política e os valores para o centro do campo das Políticas Informadas por Evidências. Precisamos, sim, investir no desenvolvimento e na sustentabilidade da técnica, mas o momento atual nos ensina que, para preservar o papel da técnica, é imprescindível e urgente fortalecer a política — entendida aqui como o processo democrático e plural de construção de ações públicas voltadas ao enfrentamento de desafios coletivos.
Para isso, a produção e a mobilização de conhecimento para a governança democrática das políticas públicas também precisam explicitar os valores e interesses que vêm sendo representados em seus processos, reconhecer aqueles que têm ficado de fora e revisar suas práticas para que possam incorporá-los.
Como muitos puderam acompanhar durante o lançamento, ainda há diversas frentes que precisam ser desenvolvidas e aprofundadas. Além de ampliar o entendimento sobre os diferentes processos de institucionalização e as distintas culturas de evidências nas áreas de políticas públicas, é essencial expandir os estudos sobre esses temas nos governos locais e nos Poderes Legislativo e Judiciário, de modo a compreender melhor os desafios e as possibilidades do uso de evidências para a governança democrática.
Também é um campo promissor avançar em estudos comparativos internacionais, capazes de analisar as relações entre diferentes culturas de evidências e fenômenos globais, como a desinformação, o enfraquecimento democrático e as transformações trazidas pela inteligência artificial.
Por último, tenho que destacar que um grande desafio que nós mesmos/as enfrentamos em nossa agenda de pesquisa é como avançar na coprodução de evidências em nossos próprios estudos. Novamente, as experiências das redes mencionadas e retratadas em vários capítulos de colegas no livro, abrem vários caminhos de experimentação e aprendizado.
Em síntese, creio que esta coletânea é também um convite a novas interações, colaborações e processos de aprendizagem em rede.
GT Comunicação Coalizão